Encontro reuniu catadoras de materiais recicláveis, lideranças comunitárias e mulheres de diferentes territórios para fortalecer o protagonismo feminino negro no enfrentamento ao racismo ambiental e às mudanças climáticas.
O Centro de Arte e Meio Ambiente – CAMA realizou a primeira edição do Café Delas, um encontro que marcou o lançamento do projeto “Mulheres Negras pela Justiça Climática: Contra o Racismo Ambiental e Pelo Direito à Vida”. A iniciativa reuniu catadoras de materiais recicláveis, lideranças comunitárias e mulheres de diferentes iniciativas sociais em um espaço de acolhimento, escuta e fortalecimento coletivo.
Mais do que uma roda de conversa, o Café Delas foi concebido como um espaço de encontro entre mulheres que, diariamente, constroem estratégias de cuidado, organização comunitária e defesa da vida em seus territórios. Ao compartilhar histórias, experiências e saberes, as participantes reafirmaram que a luta por justiça climática passa, necessariamente, pelo enfrentamento ao racismo ambiental e pela valorização das mulheres negras como protagonistas das transformações sociais.
Durante o evento, o CAMA apresentou oficialmente o projeto “Mulheres Negras pela Justiça Climática: Contra o Racismo Ambiental e Pelo Direito à Vida”, iniciativa que integra o Programa de Raça, Gênero e Direitos Humanos da organização. O projeto busca fortalecer a atuação de mulheres negras na agenda climática por meio da mobilização, da formação política, da produção de conhecimento e da incidência em políticas públicas, reconhecendo que são elas algumas das principais responsáveis pela proteção dos territórios, pela promoção da justiça socioambiental e pela construção de alternativas diante da crise climática.

A iniciativa conta com o apoio da ONU Mulheres Brasil e da Luxembourg Aid & Development, reafirmando a importância de ampliar a participação das mulheres negras nos espaços de decisão e na formulação de respostas para os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Uma metodologia que nasce da escuta e dos territórios
O Café Delas foi desenvolvido como uma metodologia social voltada ao fortalecimento da participação das mulheres negras na agenda da justiça climática. A proposta parte do princípio de que essas mulheres já acumulam conhecimentos, práticas de cuidado e estratégias de resistência construídas em seus territórios. Em vez de levar respostas prontas, a metodologia cria condições para que essas experiências sejam reconhecidas, compartilhadas e transformadas em força coletiva.
O percurso metodológico articula acolhimento, escuta qualificada, diálogo e reflexão sobre os impactos das mudanças climáticas na vida cotidiana das mulheres negras. Dinâmicas como “Meu Nome, Minha Força” e “É Igual para Todo Mundo?” estimulam o reconhecimento das trajetórias individuais e coletivas, ao mesmo tempo em que evidenciam como raça, gênero, território e classe social influenciam a forma como diferentes populações vivenciam a crise climática.

O encerramento do encontro foi marcado por um gesto simbólico de esperança e compromisso com o futuro. Cada participante recebeu um kit de plantio contendo vaso, substrato e sementes, sendo convidada a completar a frase “Eu planto justiça quando…”. A atividade reafirmou que cultivar também é um ato político e que a construção da justiça climática começa nos territórios, nas relações de cuidado e na ação coletiva.
Para Ana Carine Nascimento, pesquisadora do Observatório do Racismo Ambiental e idealizadora do projeto e da metodologia do Café Delas, a justiça climática só pode ser construída a partir da valorização das experiências das mulheres negras.
“O Café Delas nasce do reconhecimento de que as mulheres negras não precisam ser convencidas de que a crise climática existe, porque elas convivem diariamente com seus impactos. Nossa proposta é criar uma metodologia que parte da escuta, das memórias e dos saberes dos territórios para fortalecer essas mulheres como protagonistas da justiça climática. Quando reconhecemos que suas práticas de cuidado, organização comunitária e resistência também são ações climáticas, fortalecemos uma agenda construída desde a base, com pertencimento, identidade e transformação social.”
A experiência também foi destacada por Valdecy Silva, integrante do Costura Solidária Sustentável, empreendimento de economia solidária que transforma lonas e tecidos descartados em novos produtos, gerando trabalho, renda e contribuindo para a redução de resíduos.
“Nós, mulheres negras, sempre encontramos formas de transformar dificuldades em possibilidades. No Costura Solidária Sustentável, damos uma nova vida aos materiais que seriam descartados e, ao mesmo tempo, ajudamos a transformar a vida de outras mulheres por meio do trabalho e da geração de renda. O Café Delas nos mostra que isso também é justiça climática. Cuidar do meio ambiente, fortalecer outras mulheres e defender os lugares onde moramos e vivemos faz parte da mesma luta. Quando nos reconhecemos como protagonistas dessa agenda, entendemos a força que temos para transformar nossas comunidades.”
Ao promover o Café Delas, o CAMA reafirma seu compromisso com a construção de uma agenda climática comprometida com os direitos humanos, a equidade racial e de gênero e a valorização dos conhecimentos produzidos pelas mulheres negras. A organização acredita que enfrentar a crise climática exige reconhecer aqueles e aquelas que historicamente sustentam o cuidado com os territórios e construir soluções coletivas baseadas na justiça socioambiental.

O projeto “Mulheres Negras pela Justiça Climática: Contra o Racismo Ambiental e Pelo Direito à Vida” representa mais um passo nessa direção, fortalecendo redes de mulheres, ampliando espaços de participação e contribuindo para que a justiça climática seja construída com quem, há gerações, transforma o cuidado em resistência e a resistência em esperança.























