Quando o debate sobre as mudanças climáticas ganha espaço, é comum que as discussões se concentrem em tecnologias, redução de emissões e preservação ambiental. No entanto, uma pergunta continua necessária: quem permanece invisível quando o assunto é meio ambiente?
No Brasil, milhares de catadoras e catadores de materiais recicláveis realizam diariamente um trabalho essencial para a sustentabilidade das cidades. São elas e eles que recuperam materiais, reduzem o volume de resíduos destinados aos aterros sanitários, economizam recursos naturais, minerais e contribuem diretamente para a mitigação das mudanças climáticas. Apesar disso, ainda enfrentam condições precárias de trabalho, baixa remuneração e pouco reconhecimento social.
Nas cooperativas e associações de catadoras e catadores de materiais recicláveis, as mulheres representam a maioria da força de trabalho. Além da triagem, classificação e comercialização dos materiais recicláveis, muitas exercem funções de liderança, organização coletiva e gestão dos empreendimentos da economia solidária, ao mesmo tempo em que conciliam as responsabilidades do trabalho reprodutivo e do cuidado. Essa realidade demonstra que a discussão sobre justiça climática precisa incorporar as dimensões de gênero, raça e classe, reconhecendo que a crise ambiental também produz e aprofunda desigualdades sociais.
É nesse contexto que o Observatório do Racismo Ambiental (ORA) se consolida como um importante instrumento de produção de conhecimento, incidência política e fortalecimento da justiça socioambiental. Ao reunir pesquisas, dados e experiências dos territórios, o Observatório evidencia como os impactos da crise climática e da degradação ambiental recaem de forma desigual sobre populações negras, periféricas, quilombolas, indígenas e sobre as trabalhadoras e os trabalhadores da reciclagem. Mais do que revelar essas desigualdades, o Observatório contribui para qualificar o debate público, subsidiar políticas públicas e fortalecer iniciativas que coloquem as populações historicamente invisibilizadas no centro das soluções para a crise climática.

Para Maria Quitéria, catadora de materiais recicláveis autônoma, a valorização das catadoras passa pelo reconhecimento de um trabalho que beneficia toda a sociedade.
“Quando falam em meio ambiente, quase nunca falam de nós. Mas somos nós, catadoras, que todos os dias retiramos toneladas de resíduos das ruas, evitamos a poluição e garantimos que a reciclagem aconteça. Não existe justiça climática sem reconhecer e valorizar quem faz esse trabalho acontecer.”
Na avaliação de Ana Carine Nascimento, pesquisadora do Observatório do Racismo Ambiental, a justiça climática precisa reconhecer aqueles e aquelas que historicamente sustentam a reciclagem.
“As catadoras, maioria nas cooperativas e associações de reciclagem, ocupam um lugar estratégico na resposta à crise climática. No entanto, seguem invisibilizadas pelas políticas ambientais e climáticas. Pensar justiça climática exige enfrentar as desigualdades de gênero, raça e classe que atravessam o trabalho da reciclagem e reconhecer essas mulheres como protagonistas da transição ecológica justa.”
Ao longo de sua trajetória, o Centro de Arte e Meio Ambiente – ONG CAMA atua no fortalecimento de cooperativas e associações de catadoras e catadores de materiais recicláveis, promovendo assessoria técnica, formação, incidência em políticas públicas, articulação em redes e apoio à inclusão socioprodutiva. A organização compreende que a gestão de resíduos sólidos deve estar associada à promoção dos direitos humanos, da economia solidária e da justiça socioambiental.

Ao fortalecer as organizações de catadoras e catadores de materiais recicláveis e ampliar o debate sobre racismo ambiental e justiça climática, a ONG CAMA reafirma seu compromisso com um modelo de desenvolvimento que reconhece o protagonismo de quem, todos os dias, transforma resíduos em oportunidade, gera benefícios ambientais e contribui para cidades mais justas e sustentáveis.
Sem catadoras e catadores, não existe justiça climática possível. Reconhecer quem cuida do planeta é um passo fundamental para construir um futuro mais justo, inclusivo e sustentável.
























